Livre e só


A sociedade construiu uma ideia deturpada, onde a felicidade consiste basicamente em: nascer, crescer, fazer faculdade, conhecer alguém, casar-se, ter um filho, mais um filho, e talvez mais um. Nunca mais do que quatro filhos. Ver os filhos crescerem, se formarem, casarem, engravidarem… Ver todo o ciclo se repetir até onde for possível, curtindo a aposentadoria sem muitos exageros, respeitando as limitações impostas pela velhice. Adoecer completamente, ficar aos poucos sem ar, morrer feliz e finalmente: descansar em paz.

Tudo, detalhadamente se repete.

Alguém atribuiu a felicidade a esse modelo, esse formato, esse mesmo ciclo e condição. A felicidade, de repente, tem um padrão. E ele só funcionará. se repetido. Um passo a passo a ser rigorosamente seguido.

Em algum ponto, alguém falhou.

Em algum ponto, o modelo não mais serviu. Em algum ponto, alguém não se encaixou. Em algum ponto, a ficha caiu. Em algum ponto, a perfeição tornou-se ilusão. Em alguém ponto, alguma coisa aconteceu. E ninguém nos contou.

O padrão de felicidade, foi questionado.

Nenhum caminho é mais errado para a felicidade do que a vida no grande mundo, às fartas e em festanças (high life), pois, quando tentamos transformar a nossa miserável existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão; muito menos o seu acompanhamento obrigatório, que são as mentiras recíprocas.
 
Assim como o nosso corpo está envolto em vestes, o nosso espírito está revestido de mentiras. Os nossos dizeres, as nossas acções, todo o nosso ser é mentiroso, e só por meio desse invólucro pode-se, por vezes, adivinhar a nossa verdadeira mentalidade, assim como pelas vestes se adivinha a figura do corpo. 

Antes de mais nada, toda a sociedade exige necessariamente uma acomodação mútua e uma temperatura; por conseguinte, quanto mais numerosa, tanto mais enfadonha será. Cada um só pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre.
 
A coerção é a companheira inseparável de toda a sociedade, que ainda exige sacrifícios tão mais difíceis quanto mais significativa for a própria individualidade. Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exacta do valor da sua personalidade. Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é. 

Ademais, quanto mais elevada for a posição de uma pessoa na escala hierárquica da natureza, tanto mais solitária será, essencial e inevitavelmente. Assim, é um benefício para ela se à solidão física corresponder a intelectual. Caso contrário, a vizinhança frequente de seres heterogéneos causa um efeito incómodo e até mesmo adverso sobre ela, ao roubar-lhe seu «eu» sem nada lhe oferecer em troca. Além disso, enquanto a natureza estabeleceu entre os homens a mais ampla diversidade nos domínios moral e intelectual, a sociedade, não tomando conhecimento disso, iguala todos os seres ou, antes, coloca no lugar da diversidade as diferenças e degraus artificiais de classe e posição, com frequência diametralmente opostos à escala hierárquica da natureza. 
Nesse arranjo, aqueles que a natureza situou em baixo encontram-se em óptima situação; os poucos, entretanto, que ela colocou em cima, saem em desvantagem. Como consequência, estes costumam esquivar-se da sociedade, na qual, ao tornar-se numerosa, a vulgaridade domina. 

Arthur Schopenhauer, em ‘Aforismos para a Sabedoria de Vida’.

De modo simplificado: a base para sermos verdadeiramente felizes, constrói-se a partir de uma consciência expandida sobre a importância de estarmos a sós. Simplesmente sós.

Fizemos da solidão, um monstro gigantesco. Ninguém se aproxima. E quando se aproxima, é como se a solidão estivesse ali para devorar. De repente, nos percebemos completamente sozinho com nossos monstros internos, com nossos sonhos não realizados, com nossos traumas de infância, com nossos males e medos… Num ato desesperado, nos lembramos daquele modelo perfeito de felicidade construído pela sociedade que nos foi apresentado como garantia. Senti-mo-nos falhos, impotentes, frustrados. Imergidos em frustração, adoecemos. E então, a solidão que era um convite ímpar para um intenso e mágico processo de autoconhecimento, auto-reconhecimento e desenvolvimento pessoal, torna-se um convite a uma tristeza profunda. Podemos nos levar à morte.

Está na hora de repensar e mudar nossa relação com a solidão.



A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre. 

E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti, se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo. 
Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela. 

Fernando Pessoa, em ‘Livro do Desassossego’

Estar só me mostrou o que é ser verdadeiramente feliz.
E ser feliz, é ser livre. Livre e só.


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