Analisando “O quarto de Jack”


Assisti “Room” em 2017, pela primeira vez através da plataforma de vídeos Ororo.tv. Na época em que o filme foi lançado na plataforma, não era nem mesmo legendado. Mesmo assim, me arrancou fortes “insights” e lágrimas. Recentemente, recebi notificação que “Room” (que a propósito, o título em Português ficou como “O quarto de Jack“), está disponível na Netflix.

Depois de assisti-lo pela segunda vez na companhia da minha mãe, trago minhas percepções sobre um dos filmes mais singelos e –ao mesmo tempo- conflituosos que assisti nos últimos tempos. 

O filme conta a história de Joy (Brie Larson) e seu filho Jack (Jacob Tremblay), que lidam com a realidade de uma vida em cativeiro. Mãe e filho são mantidos em cativeiro por um homem perturbador (o Velho Nick), que os visita esporadicamente, colocando-os sempre condições cada vez mais perigosas e repugnantes.

Joy (a mãe de Jack) faz tudo o que está ao seu alcance, para que a vida do menino seja boa; dentro das circunstâncias, é claro!. E como aquela realidade é a única que Jack conhece, ele acaba achando agindo naturalmente e passivamente a tudo o que se passa. Está tudo bem. Acontece que Joy sabe bem que há muito mais vida fora daquele quarto.

O filme apresenta Joy como uma mulher provida de muita força e inteligência emocional. A maneira como ela lida com as adversidades vivenciadas durante a trama, beira a maestria. Acontece que, assim como todo e qualquer ser humano em estado de vulnerabilidade, ela chega em seu limite. Num ápice de revolta e insatisfação (não é para menos, definitivamente) Joy faz o único mundo perfeito que Jack conhecia, desmoronar bem diante dos olhos dele. Ela apresenta a realidade ao garotinho.

É interessante observar que a primeira reação que Jack teve foi a de negação. Somos assim na vida, em muitas circunstâncias. Quando nos apresentam a realidade, nosso instinto primário é negá-la. Depois de lidar com sua primeira frustração, Jack precisa tornar-se suficientemente curioso e corajoso para conhecer o que está acontecendo fora daquela caixa. É precisa ter não apenas curiosidade, mas força de vontade e coragem para sairmos de nossa zona de conforto e desbravarmos o mundo. 

A mãe do garoto bola um plano que (assim como todo plano) pode dar muito certo ou muito errado. Acontece que no caso deles, se der certo, é vida. Se der errado, morte. E mesmo sem uma compreensão total por parte de Jack, o menino entra em desespero ao perceber os riscos que estava correndo. Mas ela também sabe (mesmo que inconscientemente) que naquela nova realidade, seria necessário correr riscos.

O TRECHO A SEGUIR CONTÉM SPOILER

O plano -por um fio- deu certo. Jack consegue sair do quarto, e então, seu segundo grande desafio: sobreviver e chegar aonde precisa para que sua mãe também seja salva. Nessa parte da trama, nosso coração é chacoalhado de um lado para o outro. É possível vibrar a mesma energia do garotinho, é possível sentir a mesma adrenalina, é possível sentir tudo o que o roteirista e os protagonistas transmitiram.

O garotinho consegue chegar exatamente onde precisa para salvar sua mãe.
Ela que o salvou durante todos aqueles anos sombrios, agora será salva por ele.

A conexão que mãe e filho têm é tão forte, que Jack e Joy vibram na mesma frequência. E é justamente essa conexão que leva os policiais à casa onde Joy está encarcerada. A cena em que a mãe é encontrada pela equipe policial é tão emocionante, que até os mais “durões” se debulham em lágrimas. A cena é tão forte, que ouso dizer que o filme poderia encerrar com essa mesma cena. E já seria um dos meus favoritos. Mas não é isso que acontece. O filme continua. E com a continuidade, muitas lições a serem absorvidas.

Há dificuldades em todos os lados

Em vida, passaremos por dificuldades variadas. E não importa aonde estejamos, algumas delas, serão inevitáveis.

  • o novo mundo de Jack — o menino precisa lidar com questões simples como aprender a subir e descer escadas, andar em ambientes maiores, comer cereais… Mas também precisa aprender a lidar com questões mais complexas, como por exemplo: aprender em quem confiar, aprender a interagir com outras pessoas, aprender a fazer e manter amigos, aprender a lidar com outras realidades…  O novo mundo de Jack nos faz perceber que há muitos mundos em um só.
  • o recomeço de Joy — ela já esteve nesse mesmo mundo antes. E teve sua vida e liberdade interrompida com muita crueldade. Por isso, Joy enfrenta muitas dificuldades. A primeira delas é ser inserida novamente numa sociedade muitas vezes rude, cruel, interesseira e capitalista. Ela precisa aprender a encarar e lidar com seu passado, aceitando que ele já não existe mais. Controlando sua mente para que se mantenha sã e saudável. Ela precisa principalmente: aprender a viver no presente. Porque se ela não estiver presente em sua própria realidade, viverá sempre em carcere não apenas físico, mas mental, emocional e espiritual. O recomeço de Joy abre nossos olhos para o que realmente importa.
  • a vulnerabilidade nas relações — apesar de haver uma conexão profunda, intensa, acolhedora e amorosa entre Joy e Jack, ambos também enfrentam o processo de distanciamento. Ela precisa ser afastada do garotinho, para que ele expanda. Ele precisa manter-se afastado da mãe, para que ela se cure. E isso é forte. Além disso, o filme também mostra que a relação de Joy está sensível não apenas com o filho, mas com o padrasto, com a mãe, com o pai. Não apenas pela condição que vivenciou. Mas por ter trazido assuntos mal resolvidos do passado, para o presente, que por si só já bastava em seu nível de dificuldade. E essa vulnerabilidade nos ensina que, por mais que a gente ame uma pessoa, precisaremos tomar distância e dar espaço a ela em alguns momentos da vida. Asim como nos ensina que devemos abandonar nossos fardos se quisermos realmente seguir em frente. 
  • a importância de seguir em frente — o filme praticamente encerra com uma mensagem sutil de “é preciso seguir em frente, enfrentando tudo”. Nos mostrando que estar preso é terrível e pode nos levar à morte (seja ela física ou não). Mas que até mesmo a liberdade tem preço.
  • amar e ser livre — a maior lição que o filme traz (pelo menos a mim) é que amar profundamente uma pessoa, não é dominá-la, controlá-la, protegê-la obsessivamente; e sim, deixá-la livre para que ela caia e aprenda a se levantar. Para que ela faça suas próprias escolhas, aprenda a dizer “Sim”, aprenda a dizer “não”. Para que ela se desenvolva em todas as áreas da vida e esteja pronta para SER e CRESCER. E que amar profundamente e genuinamente uma pessoa, é dar a ela o que ela tem por direito: sua incondicional liberdade. Quando libertamos as pessoas que amamos, estamos gritando ao universo: “estou liberto”.

Liberte. Liberte-se.


Conclusão:

Com um roteiro envolvente, atuação impecável, fotografia extraordinária (é impressionante como um filme que se passa praticamente em uma única cena, não causa enjoo pela riqueza nos detalhes), trilha perfeitamente adequada — “O quarto de Jack” é, sem sombra de dúvidas, um dos filmes mais bonitos e emocionantes que assisti nos últimos tempos. Recomendo, certamente.

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2 comentários em “Analisando “O quarto de Jack”

  1. Tenho “medo” de assistir esse filme e meu coração se partir, hahahaha, por saber a sinopse. Mas depois de ler as “lições” que você extrai dele, vou tentar dar uma chance, e aí quem sabe conseguir ter uma saída positiva pra história!

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