Analisando “Você” da Netflix


Fazem alguns dias que assisti a primeira temporada da série “You” (você), disponível na Netflix. E por mais que hajam alguns deslizes, nem mesmo um deles desqualifica a boa produção, atuação, roteirização e fotografia da série. Diferente de outras séries que já resenhei por aqui, dessa vez, dedicarei um tempo a fazer algumas análises um pouco mais técnicas. Mas relaxa que seguiremos nossa comunicação de maneira intuitiva e informal. Espero que gostem.

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Sinopse:

Tudo começa quando Guinevere Beck (interpretada pela atriz Elizabeth Lail), uma jovem aspirante a escritora, entra em uma livraria no bairro East Village e conhece Joe Goldberf (interpretado por Penn Badgley) — o charmoso e misterioso gerente da livraria.
De um lado, Beck faz de tudo para ser notada; suas redes sociais, inclusive, têm um papel importante no desenvolvimento da trama. Do outro lado, Joe se apaixona e se convence de que deve conquistar Beck. Ele adentra na vida da garota, sem ela ter ciência sobre isso. O ponto inicial de sua “invasão” é através de suas redes sociais, passando para ações cada vez menos confiáveis; como por exemplo, espioná-la em sua casa, trabalho e ambientes sociais quais a jovem frequenta.

Joe não está apaixonado por Beck. Joe está obcecado por ela. E ele está disposto a qualquer coisa para conquistá-la e mantê-la em sua vida, mesmo que para isso, ele tenha que tomar atitudes extremas.

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ATENÇÃO: Todos os parágrafos a seguir, podem contém SPOILER.


Tenho o hábito de assistir séries e filmes sem consultar trailers e resenhas, para que eu consiga projetar minha própria opinião sem quaisquer influências. Além de gostar muito de ser surpreendida e perceber todas as minhas sensações sobre isso. Foi assim com “Você”. Eu não sabia do que se tratava. E mesmo assim, desde o primeiro momento, meu “Therapist Alert”  (aos que não sabem, sou terapeuta credenciada no Brasil) ligou desde o primeiro episódio. Consegui reconhecer num primeiro momento, a patologia do personagem principal. Falaremos sobre ele. Mas antes, vamos falar sobre Beck.

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Beck:

Beck (interpretada pela atriz Elisabeth Lail) é uma jovem escritora no ápice de seu bloqueio criativo – que é apresentado na série apenas como uma consequência de todos os demais problemas que a personagem está enfrentando; carência, insatisfação profissional, falta de estrutura familiar, relacionamento amoroso em decadência, crise financeira… Rodeada de pessoas tão desalinhadas quanto ela. Ainda assim, é possível reconhecer em Beck uma jovem que tenta manter o controle, mesmo em situações de absoluta vulnerabilidade. E justamente em um desses momentos de completa vulnerabilidade, no anseio de ser notada e amada, que Beck começa a se envolver com ninguém mais, ninguém menos que o charmoso gerente da livraria do bairro que ela vive — Joseph Goldberg.

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Joe Goldberf:

Charme, inteligência, eloquência são algumas das características do personagem principal da série. Mas as características de Joe vão muito além de um “par perfeito”. Conforme a trama vai se desenvolvendo, é possível perceber que o personagem se dedica a aprender tudo sobre a garota, não para sentir-se próximo, mas para se aproveitar de sua vulnerabilidade, e assim, parecer empático e pronto para ser envolvido em sua história. Ele está sempre absolutamente atento a vida e conduta de outras pessoas que estão envolvidas na história de Beck; dos melhores amigos, ao terapeuta. Joe é mentiroso e manipulador. Ele cria situações o tempo inteiro, para validar seus mais absurdos comportamentos. Joe sabe exatamente o quê fazer e o quê dizer à Beck, fazendo parecer que ele simplesmente é perfeito para ela. Mas na verdade, por mais compreensivo e empático que pareça, Joe não passa de um narcisista egocêntrico. E basta algum de seus planos não darem certo, que ele se manifesta violentamente, transgredindo a si mesmo e aos outros.

Joe tem o exato perfil de um psicopata.
E precisaremos falar sobre isso também.

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Patologia: Psicopatia

De acordo com o dicionário, Psicopatia é:

um distúrbio mental grave em que o enfermo apresenta comportamentos antissociais e amorais sem demonstração de arrependimento ou remorso, incapacidade para amar e se relacionar com outras pessoas com laços afetivos profundos, egocentrismo extremo e incapacidade de aprender com a experiência.

Em outras palavras, a psicopatia é um transtorno mental que consiste em uma soma de comportamentos antissociais, impulsivos, sem qualquer tipo de arrependimento, empatia, remorso, tornando o individuo diagnosticado um ser humano altamente manipulador, egocêntrico, centralizador, narcisista e que muito provavelmente, agirá com desprezo, indiferença e maquiavelicamente com as pessoas quais decide se envolver.  Além de claro, ao serem contrariados e frustrados, em alguns casos (não é um padrão), tornam-se extremamente violentos, disposto a qualquer ação para se sentirem no controle novamente.

Vale mencionar que o diagnóstico de psicopatia só pode ser feito por profissionais da psique que estejam devidamente credenciados, qualificados e capacitados para isso. O diagnóstico da psicopatia no Brasil, é feito por um psiquiatra que baseia-se sempre em uma escala chamada de “Robert Hare”. Essa escala pontua de 0 a 2, cada um dos 12 tópicos apresentados no método. São eles:

  1. Boa Lábia
  2. Ego Inflado
  3. Lorota Desenfreada
  4. Sede por Adrenalina
  5. Reação Estourada
  6. Impulsividade
  7. Comportamento Antissocial
  8. Falta de Culpa
  9. Sentimentos Superficiais
  10. Falta de Empatia
  11. Irresponsabilidade
  12. Má Conduta na Infância
Fonte: “Without Conscience, de Robert Hare”, 1993. 

Com o valor obtido, o profissional compara o valor obtido com a escala para verificar o grau de psicopatia do individuo analisado.

Se você leu esse texto e observou que tem algumas dessas características em evidência na sua personalidade, o mais recomendado é que você busque um profissional para te analisar e te ajudar nessa jornada de curar sua mente.

Os demais personagens da série, que merecem observações:

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Anikka:

Interpretada por Kathryn Gallagher, a personagem é uma influenciadora digital conhecida por ser ativista do movimento #BodyPositive (movimento que tem como objetivo levar homens e mulheres a uma relação mais positiva e amorosa com seus próprios corpos). E por mais incrível que seja o papel da personagem na série, é possível observar que ela também reflete um comportamento muito comum nos dias atuais: na internet, ela é uma coisa. Na vida real, outra. Ela não tem uma relação totalmente amigável consigo mesma e infelizmente, em vários momentos, se manifesta como uma pessoa pouco informada sobre a causa que defende. E mesmo que seja ativista de uma causa, ela também mostra ser uma pessoa preconceituosa e inconsequente durante a trama.

A causa de Anikka é nobre. Mas ela precisa de ajuda.

Às vezes, temos ciência sobre qual o nosso propósito na terra. E isso é lindo! Mas nem sempre sabemos como cumpri-lo, tornando-o parte de quem somos. Por isso, é necessário reconhecermos nossas próprias debilidades, necessidades e vulnerabilidades. E assim, buscarmos ajuda de pessoas e profissionais que possam nos auxiliar em nossa jornada; terapia, mentoria, assessoria… Tudo vai depender do que você sente que está precisando. Se você sente que não precisa de absolutamente ninguém, então, não há muito o que fazer a não ser seguir em frente. Sozinho. Vale mencionar também, que a personagem tem um perceptível atrito com a personagem que falaremos a seguir, a Peach. Mesmo sendo “melhores amigas”, há muita competição entre elas. A amizade segue uma linha de interesses, superficialidades e infelizmente, não é genuína. Cenário bastante atual, também.

Leia também: Análise do filme “O Quarto de Jack”

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Peach Salinger:

Pelo o que a série apresentou, Peach é a amiga rica de infância de Beck. Aquela, que está sempre disposta a ajudar no que for necessário e que também faz o possível para ter sempre a atenção da amiga, ao sentir-se necessitada ou vulnerável. A mocinha que tem o mundo aos seus pés. Porém, é preciso tomar nota sobre essa personagem também. Ela também vai muito além de uma “menina mimada”. Na verdade, ela tem atitudes suficientemente questionáveis (como por exemplo, fingir estar doente ou a beira de cometer um suicídio para chamar a atenção da amiga) sobre sua saúde mental e sua conduta. Peach tem comportamentos que poderiam ser denominados como obsessão. Mas na verdade, observando bem a personagem, é possível perceber que a intenção do roteirista não foi apresentá-la como uma psicopata secundária na série, e sim, como uma pessoa que está precisando não de suporte mental, mas primeiramente emocional; terapia. Na série, Peach representa o papel da gay que não se aceitou e que está longe de se assumir. Tudo para ser primeiramente aceita. Apesar de aparentar ser soberba, mesquinha, arrogante, ela é sensível e totalmente insegura.

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Durante a trama, há pequenos e grandes sinais de que é apaixonada por Beck; e mesmo sabendo que não tem chances amorosas com a amiga, ela age sempre por emoção e impulso, para ter a atenção de Beck. A sensação de obsessão fortalece quando ela torna qualquer “Flerte” de Beck, um verdadeiro inimigo. E por mais que seja necessário tomarmos cuidado com esse tipo de comportamento, podemos definir como sensação de posse e ciúmes desenfreado. Num geral, Peach também é uma personagem sem estrutura familiar, com problemas emocionais perceptíveis e que precisa de ajuda profissional para realinhar-se consigo mesma.

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Karen:

Personagem carismática, empoderada, empática (de verdade) e muito determinada. Uma pessoa que se apresenta ao mundo bem, bem consigo e com o mundo. Mas que se vê completamente envolvida na história de sua parente Claudia (a mãe do garotinha Paco, que falaremos mais pra frente). Karen está disposta a prestar todo auxílio necessário à família. Ela “tromba” com Joe pelos corredores do prédio, e flerta com ele. Os dois desenvolvem uma relação legal durante a série. Diga-se de passagem, que o relacionamento dos dois é um ponto de respiro na série. Mas não apenas isso. Karen é a prova de que muitas pessoas que surgem em nosso caminho, vêm para nos curar de algo. E por mais que essas pessoas não permaneçam em nossas vidas, a saúde, vitalidade, equilíbrio e paz que elas nos transmitem, já são o suficiente para torná-las especiais e importantes.

Nota de observação: 

Não importa como tenham sido os seus relacionamentos anteriores. Todas as pessoas que passaram por sua vida, foram canais de cura para você. E tenha certeza: você -independente de sua condição mental, física, emocional, espiritual- também foi canal de cura para a vida de cada uma delas. Lembre-se sempre do que foi bom. E com relação as cosias que não foram boas, pense sobre o quê e quanto cada uma delas te ensinou. Somos impermanentes. Assim como não somos os mesmos para sempre, relacionamentos também não precisam ser. Tá tudo bem encerrar alguns ciclos. Faz parte do processo chamado existência.

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Dr. Nicky:

Interpretado por John Stamos, Nicky protagoniza o terapeuta de Beck; além de compartilhar seus males, percepções e devaneios, a jovem tem um affair com o profissional durante a trama. Ocorre que ao descobrir que Beck está se envolvendo com seu terapeuta, Joe começa a fazer seu pseudo-tratamento com o Dr. Nicky. Sem saber que estava em um fogo cruzado, envolvido diretamente na doentia relação de Beck e Joe, o personagem passa por três fases: terapeuta, amante, vítima.

Leia também: Análise do filme “O Quarto de Jack”

Uma observação importante:

Confesso que essa foi a parte que mais me incomodou em todo a série. Como profissional da terapia, devo dizer que o roteirista simplesmente deixou passar a oportunidade ímpar de comunicar a milhões de pessoas em todo o mundo, sobre a importância da terapia na vida de um ser humano; a terapia tratada como um portal para uma jornada de autocura. Poderia dizer que essa era a oportunidade de mostrar e dizer a pessoas de todo o mundo, que a terapia não é apenas “coisa para louco”, mas para pessoas que se reconhecem como seres humanos, vulneráveis e suscitáveis ao erro. E que precisam de ajuda. Essa era a hora de dizer ao mundo que os profissionais da terapia não estão interessados em romances com seus pacientes. Mas estão interessados em ajudá-los com suas debilidades, com muito respeito e ética profissional.

A maneira supérflua como o personagem foi tratado, realmente deixou a desejar. O Terapeuta, que podia ter tido uma participação fundamental na trama, foi -no fim das contas- apenas mais um amante e vítima da história.

Pra mim, sem dúvidas, foi o maior deslize cometido pela série.

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Paco:

Começo dizendo que o talento de Luca Padovan me impressiona e emociona. É realmente linda a maneira como esse garotinho consegue transferir todo sentimento e sensação do personagens a quem está assistindo. Eu precisava reforçar esse elogio. Agora vamos falar sobre o personagem.

Paco representa todas as crianças do mundo, que -de alguma maneira- têm sido submetidas a condições deploráveis, de miséria e violência. No caso do personagem, ele passa seus dias de criança aterrorizado e perturbado com as repetitivas cenas de seu padrasto espancando sua mãe Claudia, sem poder fazer absolutamente nada, por não passar de uma criança indefesa.


“Às vezes você acha bondade no meio do inferno”

—  Charles Bukowski

 

A relação de Paco e Joe:

Há nuances entre Paco vivendo às margens da extrema violência, e encantando-se com o mundo das palavras apresentado por Joe. Joe, por sua vez, por alguma razão, demonstra empatia pelo garotinho — talvez, para se reafirmar ou tentar reparar danos interiores que vivenciou em sua própria infância; ele protege o garoto em muitas situações, e o acalenta em momentos de muita tristeza e revolta.

Esse é o ponto que o roteirista quis bugar o sistema (risos) e nos conduzir à importante reflexão sobre uma síndrome chamada “Estocolmo”. É claro que falaremos sobre ela!

A síndrome de Estocolmo

Síndrome de Estocolmo ou síndroma de Estocolomo (Stockholmssyndromet em sueco) é o nome normalmente dado a um estado psicológico particular em que uma pessoa, submetida a um tempo prolongado de intimidação, passa a ter simpatia e até mesmo amor ou amizade perante o seu agressor. (Fonte: Wikipédia)

Tudo começou em 23 de Agosto de 1973, em Copenhague, com o “Drama de Normalmstorg”.  O crime consistiu em um assalto a um banco no centro sueco, coordenado por uma assaltante e um presidiário, que colocaram quatro funcionários como reféns durante seis dias no local. Os relatos sobre o crime contam que durante o período em que estiveram na cena do crime, as vítimas e criminosos criaram vínculos afetivos, tornando-os cúmplices.

A história é realmente muito surpreendente. E foi, inclusive, a grande inspiração de “La Casa de Papel”. A propósito, falaremos sobre essa síndrome e essa série num futuro próximo aqui no blog. O mais importante por ora, é sabermos que a provável intenção do roteirista ao desenvolver a relação de Paco com Joe, foi conduzir o espectador ao ponto de reflexão e questionamento, sobre até que ponto somos capazes de nos simpatizarmos e romantizarmos o “vilão” da história. Das telas, para a vida real. Seja como for, estamos sempre buscando justificativas para coisas que simplesmente não se justificam.

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Acredito que esse foi o “ponto alto” da série. E também afirmo o quanto é importante colocarmos assuntos como estes em pauta no nosso dia-a-dia. São assuntos que realmente merecem atenção. Porque, por mais que pareça estar muito distante de nossa realidade, a verdade é que pode estar mais perto do que imaginamos. Sendo assim, para o bem individual e coletivo, é realmente necessário falarmos sobre tudo isso.

O que você sentiu com relação ao Joe?

Pare por alguns minutos e pense sobre suas percepções e sentimentos pelo personagem principal da série. Você sentiu raiva? Pena? Medo? Empatia? Necessidade de buscar ajuda?  Seja honestx consigo mesmx. O que você sentiu?

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Mesmo tendo ciência sobre a patologia do personagem, por muitos momentos tive a esperança de que “ele não era quem eu estava pensando” e que “ele não seria capaz de fazer absolutamente nada do que fez ou estava prestes a fazer”. Não senti pena, não o achei um coitadinho. Mas senti compaixão. Comecei a me questionar (mesmo sendo ele um personagem fictício) qual a história por trás daquela patologia. Será que a maneira compulsória e obsessiva com que Joe foi criado, não é afinal, a razão de tê-lo causado um dano mental tão grande? Será que se alguém tivesse interferido passivamente, a história de Joe não seria diferente? Será que se tivessem prestado mais atenção nele, ele teria interrompido a vida de tantas pessoas e declarado a própria sentença? Será que Joe a patologia de Joe é o suficiente para justificar seus crimes? Será que Joe merece compaixão?

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Sobre todos os questionamentos acima, apenas uma frase:

“Não julgue quando não houver compaixão”
— Anne McCaffey

 


Atrevo-me a dar apenas um conselho: vá com calma. E cuida da tua alma!


Leia também: Análise do filme “O Quarto de Jack”

Gratidão por me ler (sempre);
Lira

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